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20 de janeiro de 2013

6º Chá, Torradas, Música e Poesias

HUMOR É COISA SÉRIA


O humor é o açúcar da vida. Mas quanta sacarina na praça! 
(Trilussa)


No próximo dia 30, quarta-feira, a partir das 20 horas, estaremos prontos para "adoçar" a vida de todos que vierem prestigiar nosso evento.


Contaremos com a participação, na música de nosso grande amigo DON TRONXO e convidados.




Na intenção de serem açúcar adoçando suas vidas, nossos atores e alunos 




Em destaque, mostrando sua veia humorística o ator e professor Paulo Assis




ESPAÇO CULTURAL ARTE DEMAIS

Rua Isaltino Pogg, 250 - Prado, Gravatá

81 - 35333471




31 de outubro de 2012

4º Chá, torradas, música e poesia

Hoje teremos nosso 4º encontro cultural.
Com o tema O FEMININO NA ARTE, haverá leitura destes poemas e pensamentos:


CLARICE LISPECTOR

SONHE

"Sonhe com aquilo que você quiser. 
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. 
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. 
Dificuldades para fazê-la forte. 
Tristeza para fazê-la humana. 
E esperança suficiente para fazê-la feliz. 
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. 
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. 
A felicidade aparece para aqueles que choram. 
Para aqueles que se machucam. 
Para aqueles que buscam e tentam sempre. 
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. 
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. 
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. 
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade..." 
(Clarice Linspector)


Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..." 
Clarice Lispector


“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu.

Entendi então que eu, já tinha sido os outros e isso era fácil. 
Minha experiência maior seria ser o outro dos outros:  E o outro dos outros era eu.” 
Clarice Lispector


Eu, alquimista de mim mesmo. Sou um homem que se devora? Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos meus modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.Vivo em escuridão da alma, e o coração pulsando, sôfrego pelas futuras batidas que não podem parar". - 
Clarice Lispector





FLORBELA ESPANCA


Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca


Cegueira Bendita


Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me segou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nanúfar dum lago
'Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d'alma a luz de todo mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus irmãos,que triste sorte?...
E chamam-nos a nós iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte! 
Florbela Espanca




CECILIA MEIRELES

"Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens.....
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade...
É a eternidade.
És tu.

Cecília Meireles

Motivo 

Eu canto porque o instante existe 
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, 
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico, 
se permaneço ou me desfaço, 
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada

Cecília Meireles

“Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz.
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhe falares.”
Cecília Meireles


"No mistério do sem-fim 

equilibra-se um planeta. 
E, no planeta, um jardim, 
e, no jardim, um canteiro; 
no canteiro uma violeta, 
e, sobre ela, o dia inteiro, 
entre o planeta e o sem-fim, 
a asa de uma borboleta."

Cecília Meireles


Retrato

"Eu não tinha esse rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, 
assim magro,
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo
eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas
eu não tinha este coração 
que nem se mostra
eu não dei por esta mudança tão simples, 
tão certa, tão fácil
em que espelho ficou perdida minha face?" 
Cecília Meireles



CORA CORALINA

Não sei... se a vida é curta
ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
Mas que seja intensa,
verdadeira, pura...
Enquanto durar.

Cora Coralina

"Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores."
Cora Coralina


17 de outubro de 2012

Mais um pouco de Cecilia Meireles



"Cecília levita, como um puro espírito...Por isso ela se move, "viaja", sonha com navios, com nuvens, com coisas errantes e etéreas, móveis e espectrais, transformando em pura poesia essa caminhada. Uma das excepcionalidades de Cecília Meireles: a composição de uma poesia densamente feminina, não apenas a poesia feita por alguém que é mulher, mas obra de mulher, de um sem número de perspectivas sobre as coisas que os homens não teriam, poesia na qual uma das grandes forças é a delicadeza, e delicadeza de poeta, que transfigura a vida em canto..." 

Ana Cristina Cesar




(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.


Renúncia


Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
E abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nesse último gesto!









(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."


Cântico IV

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.






Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento.
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

16 de outubro de 2012

Cecília Meireles

Cecília Meireles

"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

(Romanceiro da Inconfidência)




"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre."




Serenata

"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"




Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas; 
eu não tinha este coração que nem se mostra. 
Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil: 
Em que espelho ficou perdida a minha face?"







CANÇÃO DE OUTONO

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão, 
se havia gente dormindo 
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles 
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...









Leia mais:  http://www.releituras.com/cmeireles_bio.asp 

27 de setembro de 2012

A POESIA PELO POETA

Momento de poesia no 3º Chá, torradas, música e poesia do Espaço Cultural Arte Demais, ontem.

Participação do poeta Érico Veríssimo e da psicóloga Eleonora Fonseca.



7 de junho de 2011

A Sabedoria dos Poetas

Compartilho pela beleza, profundidade e sensibilidade. 


A Sabedoria dos Poetas


Filosofia Esotérica em Forma de Versos   
 Carlos Cardoso Aveline
Desde a mais remota antiguidade, a literatura oral utilizou versos e lendas para transmitir de geração em geração a sabedoria espiritual acumulada. 
Os versos ritmados facilitavam a memorização do ensinamento. Assim eram abordados a vida, a morte, o amor, a guerra, o absoluto - e o universo. Poetas de todos os povos e tempos mergulham na  fonte de sabedoria que está acima da mente consciente.  Dali eles trazem para o mundo visível  ritmos, estruturas,  mantras, imagens cósmicas e padrões vibratórios que elevam o foco da consciência humana.
Há poesias que são verdadeiros tratados sobre a caminhada espiritual. As escrituras das grandes religiões incluem poemas.  Entre os sábios que usaram versos estão Jalaludin Rumi, Kabir, São João da Cruz, São Francisco de Assis, Lao-Tzu e inúmeros outros místicos budistas, cristãos, taoístas, islamistas, judeus ou hinduístas. Centenas de poetas têm expressado lições da sabedoria universal. Entre eles estão William Wordsworth, Alfred Tennyson,  Christina Rossetti, Walt Whitman, Jorge Luis Borges,  Rabindranath Tagore e a brasileira Cora Coralina.
Vejamos, como um exemplo entre muitos, o modo como o poeta  Mário Quintana (1906-1994) aborda o tema da morte. Com imagens fortes em versos vigorosos, Quintana  não só sugere a possibilidade da reencarnação, mas também  faz com que aceitemos em paz a nossa  fragilidade física, ao revelar de modo certeiro a nossa imortalidade essencial:
Da primeira vez em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
    
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada ...
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz,  trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca! [1] 
A consciência de que estamos de passagem no mundo ensina que a vida é curta e deve ser administrada corretamente. Este fato torna aconselhável vencer a  preguiça. A lição é simples, quase óbvia, mas, ainda assim,  aprendê-la de fato é difícil.  Os sábios usam o seu tempo de vida  para compreender a si mesmos e ao cosmo em níveis cada vez mais elevados. Para eles, morrer é um ato  inseparável da vida.
Quem morre a cada instante para o passado é capaz de renascer a todo momento para a vida eterna. No seu livro Viagem a Ixtlán, Carlos Castaneda diz que a morte é  conselheira do guerreiro espiritual. E há um poema em que  Mário Quintana fala da morte, ou transcendência, como sua amiga pessoal:
Minha morte nasceu quando eu nasci.
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao lugar amigo
Na pequenina rua em que vivi.
  
Já não tem mais nada daquele jeito antigo
De rir e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:
 Tu que és a minha doce Prometida,
 Nem sei quando serão as nossas bodas,
 Se hoje mesmo... ou no fim de uma longa vida...
 E as horas lá se vão, loucas ou tristes ...
 Mas é tão bom, em meio às horas todas,
 Pensar em ti ... saber que tu existes! [2] 
A cada morte corresponde um renascimento. O tema da reencarnação aparece com clareza na poesia de Olavo Bilac (1865-1918). Para ele, também, a evolução do nosso espírito imortal não ocorre em uma única vida. Diz Bilac: 
Outras almas talvez já foram tuas:
Viveste em outros mundos ... De maneira
Que em misteriosas dúvidas flutuas,
Vida, de vidas múltiplas herdeira!
Servo da gleba, escravo das charruas,
Foste, ou soldado errante na sangueira,
Ou mendigo de rojo pela ruas,
Ou mártir na tortura e na fogueira...
Por isso, arquejas num pavor sem nome,
Num luto sem razão: velhos gemidos,
Angústias ancestrais de sede e fome,
Dores grandevas, seculares prantos,
Desesperos talvez de heróis vencidos,
Humilhações de vítimas e santos ...  [3]  
“Sangueira”, por onde vai o soldado errante, é a batalha, o derramamento de sangue.  “Dores grandevas” são dores que duram  tempos imensos.
Os bons poetas têm saudade do que é eterno.  Sentem-se mais ou menos exilados neste tipo miúdo de espaço-e-tempo em que vive o mortal comum,  com seus dias de semana, sua pressa, seu tempo contado em minutos. O poeta prefere  os grandes temas da filosofia esotérica. A teosofia ensina que existe o Devachan,  um “local” divino entre uma existência terrestre e outra.  O Devachan é  um longo sonho abençoado que dura milênios. É um estado de espírito elevado. Nele, a alma imortal do indivíduo recorda e vivencia, durante uma pequena eternidade, o que houve de melhor e de mais espiritual em sua vida passada. A alma só sai do Devachan no  momento de preparar-se para voltar ao mundo, descansada e purificada,  e viver mais um período de aprendizado ativo.
O Devachan corresponde aos Campos Elísios da tradição greco-romana,  à  Terra Pura do budismo japonês e à  Terra Sem Males dos índios tupi. Helena Blavatsky disse que o devachan tem certa similaridade simbólica com o céu da tradição cristã. 
Olavo Bilac não só escreveu um longo poema dedicado a Gautama Buda,  mas também   compôs inúmeros versos carregados de sabedoria espiritual. E há um poema de Bilac em que o poeta -  cansado dos sofrimentos do mundo - parece sentir, claramente,  saudades do Devachan. 
Diz Bilac: 
Quem o encanto dirá destas noites de estio?
Corre de estrela em estrela um leve calafrio
Há queixas doces no ar... Eu, recolhido e só,
Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pó,
Para purificar o coração manchado,
Cheio de ódio, de fel, de angústia e de pecado...
Que esquisita saudade! – Uma lembrança estranha
De ter vivido já no alto de uma montanha,
Tão alta, que tocava o céu... Belo país,
Onde, em perpétuo sonho, eu vivia feliz,
Livre da ingratidão, livre da indiferença,
No seio maternal da Ilusão e da Crença!
Que inexorável mão, sem piedade, cativo,
Estrelas, me encerrou no cárcere em que vivo?
Louco, em vão, do profundo horror deste atascal,
Bracejo, e penso em vão, para fugir do mal!
Por que, para uma ignota e longínqua paragem,
Astros, não me levais nesta eterna viagem?
Ah! Quem pode saber de que outras vidas veio?
Quantas vezes, fitando a Via-Láctea, creio
Todo o mistério ver aberto ao meu olhar!
Tremo... e cuido sentir dentro de mim pesar
Uma alma alheia , uma alma em minha alma escondida
 - O cadáver  de alguém de quem carrego a vida ...  [4]
Além de Mário Quintana e Olavo Bilac, o tema da reencarnação aparece na obra de outro grande poeta  brasileiro, o mineiro Augusto de Lima (1859-1934). [5]   
Sobre o mesmo tema, o pensador paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) escreveu no poema “Dolências”:
Eu fui cadáver, antes de viver!....
- Meu corpo, assim como o de Jesus Cristo,
Sofreu o que olhos de homem não têm visto
E olhos de fera não puderam ver!
Acostumei-me, assim, pois, a sofrer
E acostumado a assim sofrer, existo...
Existo! ... - E apesar disto, apesar disto
Inda cadáver hei também de ser!
Quando eu morrer de novo, amigos, quando
Eu, de saudades me despedaçando,
De novo, triste e sem cantar, morrer,
Nada se altere em sua marcha infinda
- O tamarindo reverdeça ainda,
A lua continue sempre a nascer! [6]
O místico e o poeta necessitam de sossego.
Ninguém desenvolve uma visão profunda da vida se não viver de modo calmo e pacífico.  Só quem se afasta da praia agitada da mente superficial pode, de fato,  navegar no oceano da sabedoria eterna.  
Por isso o poeta inglês Alexander Pope  escreveu, no século 18,  sua “Ode à Solidão”, um  hino à simplicidade voluntária. Mesmo perdendo  a musicalidade das palavras inglesas, traduzo a seguir os versos do poema:    
Feliz quem limita seus desejos e atividades
aos poucos  hectares paternos,
contente de respirar o ar nativo
em suas próprias terras.
Lá o gado dá o leite, os campos fornecem o pão,
as ovelhas possibilitam o traje;
as árvores lhe dão sombra no verão, 
e lhe garantem fogo no inverno.
   
Abençoado quem vê sem preocupação 
os dias e as noites passarem;
com saúde no corpo, e  a mente em paz;
em sossego de dia,
e com sono profundo à noite;  estudo
e descanso combinados; doce lazer;
e com inocência, que se adapta melhor
à meditação.
Que eu viva assim, desconhecido, esquecido;
que  eu morra assim, sem ser lamentado,
longe do mundo;
e que nem sequer uma pedra diga
onde fica o meu local de descanso.  [7]
A simplicidade voluntária e a aceitação dos limites naturais da vida nos tornam mais capazes de perceber a beleza ilimitada do mundo.
A indiferença diante de dor e prazer pessoais nos livra de ilusões e revela a fonte da satisfação eterna. 
A teosofista inglesa Ianthe Hoskins mostrou em um poema que só sendo forte alguém pode ser sábio, e assim andar sem  muletas.  Traduzo:
Não há um caminho para mim, nenhum Deus, nenhum guia;
Eu me afasto de luzes e de mãos que dão indicações.
Não tenho espada, bengala ou amigo a meu lado:
Busco um lugar desconhecido, solitariamente, sem armas.
Com dedos feridos e pés sangrando,
Avanço só, enquanto ao meu redor, e diante de mim,
Um inimigo após o outro me ataca, e eu os saúdo
Como amigos que me levam ao local desconhecido.
Não me dê conselho, não ofereça ajuda.
Não há estrela em minha noite impenetrável;
Solitariamente, solitariamente deve ser feita minha jornada
Da escuridão daqui até a Luz de mais além.
É assim que o peregrino saberá de onde veio, e
A faísca se unirá com a chama eterna. [8]
O eu inferior, nossa personalidade externa,  avança pela vida sangrando e sofrendo, mas ligado à sua fonte de inspiração. O eu superior, supremo,  está acima do plano da dor. Ele vive a bem-aventurança sem limites.
A poeta brasileira Cecília Meireles dá alguns conselhos práticos para quem busca horizontes mais largos que os do eu inferior: 
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens ... 
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade ...
É a eternidade.
És tu. [9]
As diferentes dimensões da vida são inseparáveis entre si. Matéria e energia são intercambiáveis. O espírito habita a substância física e dá vida a ela. O  eterno existe dentro do instante presente.   
Ao descrever o seu Nirvana individual,  o poeta Augusto dos Anjos cita não só o filósofo alemão Arthur Schopenhauer - discípulo leigo da filosofia esotérica oriental – mas também  menciona as Ideias Abstratas da filosofia platônica:
No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero,
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!
Nessa manumissão schopenhaueriana,
Onde a Vida do Humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero,
Na imanência da Ideia Soberana!
Destruída a sensação que oriunda fora
Do tato – ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias -
Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias! [10]
NOTAS:
[1] “Mário Quintana -- 80 Anos de Poesia”,  org. Tânia Franco Carvalhal,     Ed. Globo,  SP,  ver p. 13.
[2] “Mário Quintana -- 80 Anos de Poesia”,  obra citada, p. 15.
[3]  Olavo Bilac – Poesias, Posfácio de R. Magalhães Jr., Edições Ediouro, SP, ver p. 189, poema “A Um Triste”.
[4] “Olavo Bilac – Poesias”, obra citada,  pp. 94-95, poema intitulado “Midsummer’s Night Dream”.
[5] Veja, por exemplo, o poema “Nostalgia Panteísta”,  na seção temática “Poemas Filosóficos de Augusto de Lima”, do website  www.filosofiaesoterica.com .
[6] “Augusto dos Anjos - Obra Completa”, Ed. Nova Aguilar,  RJ, 2004, 884 pp., ver p. 489.   
[7] “Essay on Man and Other Poems”, Alexander Pope, Dover Publications, Inc., Nova Iorque, EUA, 98 pp., ver p. 01.
[8] Poema  “The Search”, no livro “Reflections on Time, Duration and Immortality”, de Ianthe Hoskins,  Theosophical Publishing House, Londres, 2001, ver  p. 37.
[9] “Cânticos”, Cecília Meireles, Editora Moderna Ltda., SP, 1983, Poema II.
[10] “Augusto dos Anjos - Obra Completa”, Ed. Nova Aguilar,  RJ, 2004, obra citada,  ver p. 310, Poema intitulado “O Meu Nirvana”.
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O texto acima foi  revisado em fevereiro de 2010, especialmente para www.filosofiaesoterica.com .   Ele havia sido publicado originalmente  na revista “Planeta”, de São Paulo, edição de setembro de 2001.  
Veja as seções temáticas  “Poemas Filosóficos de Vários Autores” e “Poemas Filosóficos de Augusto de Lima”,  no website www.filosofiaesoterica.com .
00000000000000000000000000000000000000000000000000   

28 de abril de 2011

Nostalgia Panteísta


 Um Poema Clássico Sobre  Oceano e Reencarnação 

Augusto de Lima

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O poeta brasileiro Augusto
de Lima viveu de 1859 a 1934
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Um dia, interrogando o níveo seio
De uma concha voltada contra o ouvido,
Um longínquo rumor, como um gemido,
Ouvi plangente e de saudades cheio.
Esse rumor tristíssimo, escutei-o:
É a música das ondas, é o bramido,
Que ela guarda por tempo indefinido,
Das solidões marinhas de onde veio.
Homem, concha exilada, igual lamento
Em ti mesmo ouvirás, se ouvido atento
Aos recessos do espírito volveres.

É de saudade, esse lamento humano,
De uma vida anterior, pátrio oceano,
Da unidade concêntrica dos seres.


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O poema “Nostalgia Panteísta” é reproduzido aqui conforme consta no volume “Poesias”, de Augusto de Lima, publicado por H. Garnier Livreiro-Editor, Rio de Janeiro e Paris, edição de 1909, 300 pp., ver p. 132. 
 
Outros poemas filosóficos do pensador mineiro Augusto de Lima (1859-1934) estão publicados neste website. 
 
Para saber mais sobre teosofia e sabedoria universal, visite sempre www.filosofiaesoterica.com .
 
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